Ser líder é equilibrar pratos, apagar incêndios e manter a equipe motivada, tudo ao mesmo tempo. A pressão é constante, e é fácil deixar que o bem-estar pessoal fique em segundo plano. Mas o que acontece quando essa pressão vira um peso insustentável? É aí que os sinais de burnout podem começar a aparecer. Para entender melhor esse cenário e buscar formas de se cuidar, consultamos a Dra. Priscila Ruwer, médica psiquiatra que atende em Curitiba, sobre os sinais de burnout na liderança e estratégias de cuidado no dia a dia.
O burnout é mais do que um cansaço passageiro. A Organização Mundial da Saúde (OMS), na CID-11, o descreve como um fenômeno ocupacional que surge do estresse crônico no trabalho, quando não é bem administrado. Ele tem três dimensões principais: uma exaustão profunda, um distanciamento mental do trabalho (ou até um certo cinismo) e uma sensação de que sua eficácia profissional está em queda livre.
Ou seja, não é uma condição médica, mas uma síndrome associada especificamente ao contexto de trabalho. É um alerta do seu corpo e mente de que algo não vai bem. Ignorar esses avisos pode custar caro, tanto para você quanto para o time.
Sinais de burnout: o que costuma aparecer primeiro em quem lidera
Os líderes, muitas vezes, são os últimos a perceber que algo está errado, afinal, a cultura de “dar conta de tudo” é forte. Contudo, alguns sinais de burnout podem ser notados nos primeiros estágios. Fique de olho nestes pontos, que tendem a surgir antes da situação se agravar.
Exaustão que não melhora com descanso
Você dorme, mas parece que não descansou nada. O cansaço não é só físico; é uma fadiga emocional que insiste em ficar, mesmo depois de um fim de semana de folga. Essa sensação de esgotamento é profunda, persistente, e você começa a sentir que suas energias nunca são totalmente recarregadas.
É como se a bateria estivesse sempre em 10%, não importa quanto tempo você a deixe na tomada. Isso pode se manifestar logo pela manhã, quando a simples ideia de começar o dia de trabalho já parece exaustiva. Sua mente e corpo pedem uma pausa, mas a pressão para seguir em frente impede o repouso necessário.
Distanciamento e cinismo que começam pequenos
No início, pode ser sutil. Aquela empolgação com os projetos começa a diminuir. Você se pega sendo mais cínico sobre as metas da empresa, sobre a capacidade do seu time ou até sobre a importância do seu próprio trabalho. O distanciamento pode se manifestar em pequenas coisas: menos paciência com as perguntas da equipe, dificuldade em se engajar nas conversas de corredor ou um certo “piloto automático” nas reuniões.
Você está presente fisicamente, mas sua mente está um pouco à parte, como se tentasse se proteger de mais demandas. Essa indiferença ou negativismo é um dos sinais de burnout que afeta diretamente as relações de trabalho.
Queda de eficácia e sensação de estar sempre atrasado
Mesmo se esforçando mais do que nunca, parece que o resultado não vem. A produtividade cai, a concentração falha e a sensação de estar constantemente sobrecarregado, sem conseguir zerar a lista de tarefas, vira rotina. Você sente que está correndo atrás do prejuízo, mas o atraso só acumula. Isso gera uma frustração enorme e uma sensação de impotência, como se o esforço não fosse mais suficiente para entregar o que é esperado. Tarefas que antes eram simples se tornam montanhas.
Corpo reclamando: sono, irritação, dores e foco ruim
O corpo é um termômetro fiel do nosso estado mental. Quando a pressão é demais, ele reage. Sinais de burnout podem incluir problemas para dormir – dificuldade em pegar no sono ou acordar várias vezes –, dores de cabeça frequentes, tensão muscular, problemas digestivos ou uma sensação geral de mal-estar. A irritabilidade aumenta, e pequenos contratempos viram grandes problemas. A impaciência se torna uma constante, e a capacidade de se concentrar em uma única tarefa diminui drasticamente. Esses são alertas físicos de que o estresse está extrapolando seus limites.
Um alerta silencioso: perder o interesse pelas pessoas e pelo trabalho
Um dos sinais de burnout mais preocupantes é quando a paixão pelo que você faz, e até pelas pessoas com quem você trabalha, começa a se esvair. O que antes era motivador agora parece indiferente. As interações com a equipe, que antes eram fontes de energia, tornam-se mais uma tarefa. Há um desengajamento emocional, uma perda daquela faísca que fazia você se sentir parte de algo maior. Essa desconexão pode ser um indicativo de que o burnout está se instalando profundamente.
Sinais de burnout e estresse: como não confundir as duas coisas
É comum acharmos que todo cansaço ou irritação é “estresse do dia a dia”. E sim, estresse faz parte da vida, especialmente para quem lidera. Mas existe uma diferença fundamental entre estar estressado e estar em burnout. Entender essa distinção é essencial para buscar o tipo de ajuda certo.
Estresse pode acelerar; burnout tende a esvaziar
O estresse, em si, pode ser até um motor, nos impulsionando a agir, a cumprir prazos. Ele ativa nosso corpo para a ação, nos deixa mais alertas. Você se sente sobrecarregado, agitado, talvez ansioso, mas ainda consegue lutar, dar o seu melhor. Com o burnout, a história é outra. A exaustão é tão grande que não há mais energia para lutar. Você se sente esvaziado, exausto, sem ânimo para mais nada. É como se o tanque estivesse vazio, e não há força para seguir em frente. Os sinais de burnout são de um corpo e mente que desistiram de lutar.
Quando o “só estou cansado” vira padrão
Quantas vezes você já disse (ou ouviu) “só estou cansado”? Esse cansaço pontual é normal. Mas quando ele se torna a sua condição padrão, quando você acorda cansado e vai dormir ainda mais exausto, e nenhum descanso parece resolver, é hora de ligar o sinal de alerta. Se a exaustão se tornou uma companhia constante e impacta sua performance e suas relações, não é “só cansaço”, pode ser algo mais.
O risco de normalizar o que já está caro demais
Ainda mais perigoso é normalizar esses sentimentos. A ideia de que “líder tem que ser forte” ou “é assim mesmo” nos leva a ignorar os sinais de burnout. A cultura de valorizar a sobrecarga como sinônimo de produtividade contribui para essa normalização. Mas a conta chega, e o preço de ignorar o burnout pode ser muito alto, afetando não apenas a carreira, mas a saúde física e mental de forma ampla. É preciso desconstruir a ideia de que “estar no limite” é sinônimo de sucesso.
Por que liderança sob pressão acelera o desgaste
A posição de liderança, por natureza, já vem com uma dose extra de pressão. Mas certos fatores podem acelerar o caminho para o burnout, tornando a situação ainda mais delicada para gestores e chefes de equipe. É importante entender essas dinâmicas.
Demandas de cima, cuidado do time embaixo
Líderes e gestores são, frequentemente, como a “carne do sanduíche”. Recebem a pressão por resultados e metas agressivas da alta gerência, enquanto precisam manter o time engajado, motivado e produtivo. Essa posição intermediária exige um malabarismo constante entre a cobrança por cima e o cuidado com as pessoas de baixo. É uma dualidade que drena muita energia e, sem válvulas de escape, pode intensificar os sinais de burnout. Quando os recursos são escassos e a cobrança é alta, o risco de esgotamento aumenta exponencialmente.
Falta de controle, prioridades conflitantes e urgência eterna
Uma das maiores fontes de estresse e, consequentemente, de burnout, é a sensação de falta de controle. Líderes podem se sentir reféns de decisões que não tomaram, com pouca autonomia para mudar o curso das coisas. Soma-se a isso um fluxo constante de prioridades conflitantes, onde tudo parece “para ontem”. Essa urgência eterna e a dificuldade em estabelecer o que realmente importa podem levar a uma sobrecarga mental e emocional, dificultando o reconhecimento dos sinais de burnout.
Trabalho invisível: decisões, conflitos, mensagens fora de hora
Grande parte do trabalho de um líder é invisível. Lidar com conflitos de equipe, tomar decisões difíceis que afetam pessoas, responder a mensagens e e-mails fora do horário comercial, pensar em estratégias e no futuro do negócio… Tudo isso consome tempo e energia mental, mas raramente aparece nas métricas de produtividade. Esse trabalho silencioso é crucial, mas se não for gerenciado, torna-se um fardo pesado que contribui para o esgotamento.
Quando “dar conta de tudo” vira hábito perigoso
A busca pela perfeição e a crença de que é preciso “dar conta de tudo” são armadilhas comuns para líderes. A ideia de que delegar é sinal de fraqueza ou que só você pode fazer algo com a qualidade necessária, leva a um acúmulo insustentável de tarefas. Esse hábito de centralizar e não saber dizer “não” aos outros (e a si mesmo) é um dos maiores aceleradores do burnout.
Um plano de cuidado no dia a dia para reduzir risco de burnout
Diante dos sinais de burnout, é essencial agir. E a boa notícia é que você não precisa de grandes revoluções para começar a se cuidar. Ajustes pequenos e consistentes na rotina podem fazer uma diferença enorme.
Pausas curtas para baixar a rotação e checar sinais do corpo
Acha que não tem tempo para pausas? Pense de novo. Pausas curtas e regulares ao longo do dia são como mini reinícios para sua mente. Não precisa ser uma hora de almoço fora; 5 a 10 minutos para levantar, esticar o corpo, beber água, olhar pela janela, ou até fazer uma respiração mais profunda já ajuda. Essas pequenas interrupções permitem que você se reconecte com o seu corpo, perceba qualquer tensão e reduza a escalada do estresse antes que ele se torne avassalador.
Limites de horário e comunicação que não quebram a equipe
Defina e respeite seus horários de trabalho. Isso vale para você e serve de exemplo para sua equipe. Se você está enviando e-mails à meia-noite, a mensagem para seu time é que eles também devem estar disponíveis. Crie uma comunicação clara sobre os horários de contato e as expectativas de resposta. Use ferramentas para agendar e-mails e evite reuniões fora do expediente, sempre que possível. Estabelecer esses limites é um dos primeiros passos para frear a exaustão.
Delegação sem culpa: acordos claros, combinados e autonomia real
Delegar não é fraqueza, é inteligência. Para líderes que veem os primeiros sinais de burnout, é fundamental aprender a distribuir tarefas. Mas não basta “passar o problema”. Delegue com clareza: explique a tarefa, o objetivo e o prazo. Dê autonomia para a pessoa executar e confie no processo. Isso não só alivia sua carga, mas também desenvolve seu time. Crie acordos e combinados sobre as responsabilidades, e libere-se da necessidade de microgerenciar tudo.
Sono, alimentação e movimento: o básico que sustenta o resto
Pode parecer óbvio, mas muitas vezes são os primeiros a serem sacrificados. Um sono de qualidade é reparador e essencial para a função cognitiva. Uma alimentação equilibrada fornece a energia necessária para enfrentar o dia. E a atividade física regular, mesmo que seja uma caminhada de 30 minutos, ajuda a liberar o estresse e a melhorar o humor. Esses pilares são o alicerce do seu bem-estar e não podem ser negligenciados, principalmente quando você identifica os sinais de burnout.
Rede de apoio: pares, mentoria e psicoterapia sem vergonha
Você não precisa (e nem deve) carregar tudo sozinho. Converse com outros líderes, compartilhe desafios e aprenda com as experiências deles. Uma mentoria pode oferecer perspectivas valiosas. E, claro, a psicoterapia é uma ferramenta poderosa para entender e lidar com o estresse e o burnout. Não há vergonha em buscar ajuda profissional para sua saúde mental; pelo contrário, é um sinal de força e autoconhecimento.
Sinais de burnout que pedem ajuda profissional sem adiar
Se os sinais de burnout já estão afetando áreas importantes da sua vida, e as estratégias de autocuidado não parecem suficientes, é hora de procurar ajuda profissional. Não hesite.
Quando o sofrimento começa a afetar trabalho, casa e relações
O ponto de virada é quando a exaustão, o cinismo e a ineficácia profissional transbordam para sua vida pessoal. Você percebe que está impaciente em casa, com dificuldade para se conectar com a família e amigos, ou que o prazer em hobbies e atividades fora do trabalho desapareceu. Se o sofrimento se torna generalizado, impactando seu humor, suas relações e sua capacidade de aproveitar a vida, a ajuda especializada é indispensável.
Psiquiatra ou psicólogo: como decidir por onde começar
Muitos se perguntam: “Devo procurar um psicólogo ou um psiquiatra?” Ambos são profissionais essenciais, e a escolha inicial pode depender da intensidade dos seus sintomas. O psicólogo trabalha com terapia, ajudando a identificar padrões de pensamento e comportamento, desenvolver estratégias de enfrentamento e lidar com as emoções. É ideal para quem precisa de um espaço de fala e autoconhecimento.
O psiquiatra, por sua vez, é um médico especializado em saúde mental que pode diagnosticar condições psiquiátricas e prescrever medicamentos, se necessário. Em casos de burnout mais severo, com sintomas físicos ou emocionais intensos, a avaliação de um psiquiatra é fundamental. Em muitos casos, a abordagem combinada (psicoterapia e, se preciso, medicação) oferece os melhores resultados.
O que levar para uma primeira consulta para aproveitar melhor
Para otimizar sua primeira consulta, seja com psicólogo ou psiquiatra, prepare-se. Anote os sintomas que você tem sentido, quando começaram, como afetam seu dia a dia e quais estratégias você já tentou. Mencione também seu histórico de saúde, uso de medicamentos e quaisquer fatores de estresse no trabalho ou na vida pessoal. Quanto mais informações você fornecer, mais preciso será o apoio que poderá receber.
Como cuidar do time sem se abandonar no processo
Um líder em burnout não consegue cuidar efetivamente de sua equipe. Cuidar de si mesmo é, também, uma forma de liderar pelo exemplo e criar um ambiente de trabalho mais saudável para todos.
Modelar limites sem “sumir” da equipe
Líderes que demonstram como é possível ter limites saudáveis e ainda ser produtivo são inspiradores. Não se trata de “sumir” ou se desconectar, mas de mostrar que existe vida fora do trabalho. Ao respeitar seus próprios horários e se cuidar, você incentiva sua equipe a fazer o mesmo, contribuindo para a prevenção dos sinais de burnout de todo o time. Mostre que o bem-estar é uma prioridade, não um luxo.
Conversas curtas de carga de trabalho e prioridades
Crie um canal aberto para conversar sobre a carga de trabalho e as prioridades. Reuniões rápidas para alinhar expectativas, reorganizar tarefas e identificar possíveis sobrecargas podem evitar que o estresse se acumule. Pergunte à sua equipe como eles estão se sentindo em relação às demandas e esteja aberto a ajustar o curso, se necessário.
Ajustes no ambiente que tiram peso do indivíduo
Ações individuais são importantes, mas não resolvem sozinhas se o ambiente de trabalho for tóxico. A liderança tem um papel crucial em promover mudanças organizacionais que reduzam os riscos psicossociais. Isso inclui políticas de bem-estar, cargas de trabalho razoáveis, clareza de funções e um ambiente de respeito. Ajustar o ambiente significa criar uma cultura onde os sinais de burnout são reconhecidos e endereçados proativamente.
O que a OMS recomenda para saúde mental no trabalho
A OMS e a Organização Internacional do Trabalho (ILO) recomendam uma abordagem que integra intervenções organizacionais para reduzir riscos psicossociais, capacitação de gestores para reconhecer e responder ao sofrimento dos colaboradores, e acesso a práticas de apoio no trabalho. Isso mostra que a responsabilidade pela saúde mental no ambiente corporativo é compartilhada e exige ações em diferentes níveis, desde a alta gestão até cada indivíduo.
Perguntas comuns sobre sinais de burnout
Muitas dúvidas rondam o tema do burnout, especialmente para quem ocupa posições de liderança. Vamos esclarecer algumas delas.
Burnout é diagnóstico?
A OMS, na CID-11, classifica o burnout como um fenômeno ocupacional resultante de estresse crônico no trabalho mal gerenciado. Não é considerado uma doença médica no sentido tradicional, mas sim uma síndrome relacionada ao contexto profissional, que pode requerer atenção e tratamento. É um problema de saúde legítimo, mas focado no contexto do trabalho.
Burnout pode virar depressão?
Sim. Embora sejam condições distintas, o burnout e a depressão podem estar interligados. A exaustão prolongada, o desânimo e a sensação de inutilidade associados ao burnout podem ser um fator de risco para o desenvolvimento de um quadro depressivo. É por isso que é tão importante reconhecer os sinais de burnout e buscar ajuda o quanto antes.
Dá para continuar performando e ainda assim estar em burnout?
É possível, sim. Muitas pessoas em burnout continuam a “funcionar” no trabalho, mas com um custo altíssimo. A performance pode até ser mantida por um tempo, mas geralmente vem acompanhada de um esforço sobre-humano, uma grande angústia, irritabilidade e uma perda significativa da qualidade de vida. A pessoa está presente, mas esgotada, e a qualidade do trabalho e das relações tende a cair.
O que dizer para o RH ou para o gestor acima de mim?
Se você está enfrentando sinais de burnout, a conversa com o RH ou seu gestor superior é crucial. Seja honesto sobre o que está sentindo, focando nos sintomas (exaustão, dificuldade de concentração, irritabilidade) e como eles estão impactando seu trabalho e bem-estar. Proponha soluções que possam aliviar a pressão, como reavaliar prioridades, delegar tarefas ou ajustar a carga de trabalho. A empresa tem interesse em manter seus líderes saudáveis e produtivos.
Quanto tempo leva para melhorar?
Não há uma resposta única, pois o tempo de recuperação varia muito de pessoa para pessoa e da gravidade do burnout. Pode levar semanas, meses ou até mais. A chave é buscar ajuda profissional (psicólogo e/ou psiquiatra), fazer os ajustes necessários na rotina e no ambiente de trabalho, e ser paciente consigo mesmo. A recuperação é um processo gradual que exige dedicação e autocuidado contínuos.
Um próximo passo para aliviar a pressão
Reconhecer os sinais de burnout na liderança é o primeiro e mais importante passo para cuidar de si e, por consequência, da sua equipe. A pressão do dia a dia é real, mas o seu bem-estar não precisa ser a moeda de troca. Comece com pequenas mudanças, converse com quem confia e não hesite em buscar apoio profissional. Sua saúde mental é um ativo valioso.
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