Edição 325 | 2019

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14/03/2019 13:43

O autismo está entre nós

Especialistas explicam como identificar o autismo e profissionais da área debatem sobre a importância da inclusão escolar

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No mundo, há um caso de autismo para cada 45 pessoas. É o que mostra a última pesquisa realizada pelo Centre of Deseases Control and Prevention (EUA). O chamado Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é uma síndrome que se caracteriza por desordens no desenvolvimento do cérebro, afetando comunicação social, imaginação e comportamentos repetitivos, principalmente. Até hoje, ainda não se sabe a causa, porém, vários estudos apontam para um valor genético importante.

O TEA, engloba diversos aspectos do desenvolvimento infantil, podendo se dar em maior ou menor grau. De acordo com a fonoaudióloga Lílian Kuhn, existem três quadros clínicos que englobam o diagnóstico, são eles: clássico (tipo mais conhecido, em que há um comprometimento nas áreas de interação, comportamento e linguagem, além de relevante déficit cognitivo), Alto funcionamento (ou Síndrome de Asperger: os portadores conseguem se expressar através da fala e são muito inteligentes, acima da média da população) e Distúrbio Global do Desenvolvimento (tem características do TEA, como alteração de interação e comportamento, mas não há um diagnóstico fechado).

Entender o que é o TEA é também um primeiro passo para desmistificar o transtorno. Existem alguns mitos que permeiam os sintomas, inibindo a possibilidade de diagnósticos de crianças que não apresentam claramente estes indicativos. Por isso, a busca por especialistas é tão importante para adquirir informações confiáveis o mais cedo possível.

Primeiros sinais
Segundo a psicóloga, especialista em neuropsicologia e professora da pós-graduação em TEA, com ênfase em intervenção comportamental, do Instituto de Desenvolvimento Educacional (IDE), Luana Passos, é possível identificar sinais de autismo antes mesmo do primeiro ano de vida. “Os sinais de alerta podem ser observados nos primeiros meses do bebê. Entre eles, não se jogar para o colo de quem aproxima as mãos e o chama, não atender ao chamado do seu nome e ausência do compartilhar atenção. Com esses comportamentos, é importante ter um acompanhamento médico mais minucioso e estar alerta a um possível diagnóstico de TEA”, explica.

Normalmente, o autismo é diagnosticado ainda na primeira infância, entre os 12 e 24 meses de vida. “Os sinais podem ser dificuldade de interagir com outras crianças e adultos, não manter contato visual, não atender quando se é chamado, comportamento repetitivo, entre outros. Os sintomas variam de acordo com o estímulo fornecido pelo ambiente familiar, do grau do TEA e se está associado ou não a outras patologias”, comenta a Terapeuta Ocupacional do Grupo São Cristóvão Saúde, Dayane Sanches de Castro. A pediatra do Hospital e Maternidade São Cristóvão, Claudia Fenile Conti, explica que o autismo se traduz nos detalhes do comportamento da criança, gestos, agitação, o olhar e de que forma ela interage com o mundo externo. “Infelizmente, não há um exame específico que detecte o autismo, o diagnóstico é feito com as informações coletadas nas consultas, como os sinais observados, histórico familiar e conversas com os pais, além de uma avaliação complementar do neuropediatra”, ressalta.

A fonoaudióloga Alessandra Sales, que atua há 10 anos com autismo e é também professora da pós-graduação em TEA do IDE, diz que os sinais de autismo, mais notados em crianças acima de um ano, são atraso no desenvolvimento da linguagem, comportamentos restritos e repetitivos, além de dificuldade na interação. “Esses indivíduos precisam de estimulação o mais precocemente possível. As pessoas que convivem com eles devem ser pacientes, tentar ser o mais claro e objetivo possível sempre que der um comando e utilizar recursos visuais para facilitar a independência da criança, por exemplo”, orienta.

A maioria dos autistas costuma ter dificuldades na fala, seja em maior ou menor grau, “desde aqueles que não emitem sons, até os que tem dificuldade de usar a comunicação dentro de um contexto social”, detalha Alessandra. Os indivíduos com a síndrome também podem apresentar outras dificuldades associadas, como distúrbio de sono, dificuldades alimentares e andar na ponta dos pés.

“Precisamos observar o funcionamento cognitivo e comportamental dessas crianças para entendermos as melhores estratégias a serem usadas e assim melhorar sua qualidade de vida. O autista tem suas limitações sociais, mas essas podem ser minimizadas quando tratadas corretamente”, garante Luana.

Apesar de todas as dificuldades apresentadas na vida desses indivíduos, Alessandra esclarece que é possível, com estímulos, o indivíduo com autismo conquistar a independência. “Mas o grau do autismo influencia muito nesse aspecto. Em cada fase da vida desse indivíduo as dificuldades vão surgindo e precisam ser trabalhadas, por isso o acompanhamento de uma equipe multidisciplinar é muito importante, além do trabalho feito em casa e na escola”.

Inclusão escolar
Outro fator importante para o seu crescimento é a inclusão social, sendo fundamental que ele esteja inserido na sociedade. “A partir daí podemos oferecer instrumentos que facilitam essa inserção. Assim como uma pessoa com dificuldade de vista precisa usar óculos, a criança autista pode precisar de alguns instrumentos, a exemplo de uma pasta de comunicação para interagir com a sociedade”, pontua Luana.

Para que essa inclusão seja real, as escolas precisam estar preparadas para receber os alunos autistas, sendo capazes de entender que a forma como ele aprende pode se diferenciar da maioria dos outros estudantes.
Segundo a conselheira da Associação Brasileira de Psicopedagogia, Quezia Bombonatto, os professores precisam ter uma formação de qualidade capaz de identificar os alunos que apresentam essa alteração, para que possam encaminhá-los a uma equipe especializada. Além disso, deve conhecer e saber aplicar métodos de ensino mais eficazes para o aprendizado desses alunos.

A questão escolar é um dos principais anseios dos pais, uma vez que logo cedo a criança necessita ser inserida nesse contexto para a busca do desenvolvimento da aprendizagem. Mas a dúvida é: como fazer para incluir a criança no ambiente escolar de maneira efetiva e eficaz?
A especialista em Neuropsicologia e Analista do Comportamento Aplicada ao Autismo do Grupo Conduzir, Renata Michel, comenta que o assunto é bastante complexo, visto que estamos falando do ensino no Brasil, que já apresenta grandes dificuldades para o ensino regular, desde pormenores políticos, econômicos e sociais.

Quando falamos na “inclusão escolar ideal” para crianças com autismo, esbarramos nas principais dificuldades educacionais enfrentadas no País. Os pais devem ser sempre orientados a irem em busca do direito ao ensino e inclusão do filho, se assim bem entenderem. A adaptação curricular deve ser sempre orientada pelo profissional analista do comportamento ou psicopedagogos que acompanham o caso.

Inclusão na prática
A diretora do Colégio São José do Maranhão, Sona Karamekian, conta que a escola já trabalha com a inclusão de crianças com necessidades especiais há 18 anos. “Sempre quisemos mostrar que é possível a convivência com aquele que é diferente e que todos temos o nosso potencial a ser desenvolvido. Hoje, quando um aluno do ensino regular se matricula em nossa escola, ele já sabe que a condição para o recebermos é que ele entenda que vai estudar com pessoas que tem algo de diferente”, conta.

A escola trabalha com diversas parcerias como o projeto “Emprego Apoiado” da Apae que leva os alunos para fazer treinamentos e ocupar vagas em empresas abertas à inclusão. Além disso, a parceria com o Clube Atlético Corinthians permite que os alunos aprendam a nadar e participem de competições. “Ensinamos para as crianças e jovens do Regular a conhecer seus amigos e suas peculiaridades, além de ressaltar suas dificuldades e habilidades. Cada criança é uma realidade”, destaca.

A preocupação da diretora em atualizar a equipe também é uma constante. “Nosso aprendizado está sempre em atualização. Participamos de congressos, palestras e cursos pois sabemos a importância não só de incluir mas tornar esses indivíduos parte da sociedade. Trabalhamos em parceria com a família, os médicos e os terapeutas para o pleno desenvolvimento de cada aluno. É preciso preparar o professor. Adaptar as provas e atividades. Trabalhar em equipe é a chave para o sucesso”, finaliza Sona.

“Resolvi fazer alguns cursos sobre autismo mesmo antes de saber que Thalles seria meu aluno. Estou com ele há dois anos e posso dizer que Thalles me transformou em um ser humano melhor. Sempre me preocupei em integrá-lo com a turma e fazer com que a inclusão realmente acontecesse, com que todos se sentissem especiais e que cada um, a sua maneira, se preocupasse em fazer o melhor para ajudar o próximo.
Pensando nisso e incentivada por uma amiga que acompanhou o meu trabalho de perto, resolvi escrever um livro. Neste livro, Thalles é o personagem principal, e o enredo mostra um pouco do cotidiano escolar abordando de forma lúdica a importância do respeito às diferenças e o valor da amizade.”
Professora Ana Claudia


“É muito fácil falar de inclusão mas muitas vezes isso não acontece de forma natural. Nós trabalhamos com a inclusão de forma gradativa, conforme conhecemos o aluno”
Sona Karamekian - Diretora do Colégio São José do Maranhão
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