Edição 303 | 2017

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24/02/2017 15:23 - Atualizado em 24/02/2017 15:24

Jornada de fé e reflexão

Não importam os motivos, tão pouco a rota escolhida, todos os caminhos levam a Santiago de Compostela que recebe o mundo de braços abertos

Divulgação
Você pensa, a princípio, que tem um único motivo que te impulsiona a realizar o desafio de caminhar até o Santo. Com o passar dos dias, começa a se envolver com pesquisas e informações a respeito de como viabilizar esse objetivo que até parece impossível.
Para sua surpresa, na fase dos preparativos, descobre que, a cada dia, diminuem os pertences que vão na mochila e aumentam, quase na mesma proporção, os pedidos que vai levar.

Amigos, clientes, parentes e até recém conhecidos, ao saberem que vai peregrinar até Santiago de Compostela, na Espanha, passam a fazer de você um mensageiro, e, por incrível que pareça, o Santo ajuda para que quando chegue lá não se tenha esquecido de nada que ficou de ‘conversar’ com ele, e de todos que lhe mandaram mensagens.

Solicitação de curas, procura pela felicidade, fim de brigas entre familiares ou apenas que o Apóstolo Thiago possibilite que um peregrino possa um dia voltar, são alguns dos pedidos que levamos até ele e lhe falamos ao ouvido quando nos possibilitam ‘abraçá-lo’ no púlpito mais alto da catedral, onde o mundo se reúne para saudá-lo. Confesso que precisei acessá-lo duas vezes tantos foram os pedidos que levei até ele. (Pelo menos três, poucos meses depois do retorno, ele já atendeu).

Para começar
Se você gosta de caminhar, não importa a idade ou o rendimento que tenha nesta modalidade, é um forte candidato a vivenciar esta incrível experiência. Primeira providência é escolher um caminho; são vários saindo de diferentes pontos e com distâncias que vão de 900 km a apenas 100 km (este último é o mínimo exigido - a pé ou a cavalo - para receber o ‘atestado’ que se chama Compostela).
Só ou acompanhado? Você escolhe. Épocas do ano? Primavera ou outono. Objetivo: pedir milagres, uma pausa para meditar, conhecer pessoas do mundo inteiro, fazer companhia a um amigo ‘um tanto corajoso ou maluco’, se aventurar, não importa, a medida em que os dias vão passando vai encontrar muitos outros motivos para estar se dirigindo a Santiago de Compostela.
Para começar, uma pesquisa na internet vai mostrar as opções dos caminhos e os dias necessários para percorrê-los, então escolhemos o Caminho Português pela Costa, pois dispúnhamos de 17 dias para os cerca de 260 km de distância entre a cidade do Porto (Portugal) e Finisterre (Espanha). Pois é, a frente de Santiago tem uma cidade onde se considera o final da viagem, um local onde as homenagens passam a ser, não mais ao Santo, e sim aos peregrinos.
Quem pode ajudar nestas decisões quanto ao caminho é AACS-Brasil - Associação Brasileira dos Amigos do Caminho de Santiago (www.caminhodesantiago.org.br). Além das inúmeras informações, fornecem a Credencial do Peregrino, que nós chamávamos durante o trajeto carinhosamente de ‘passaporte da alegria’. Durante o percurso este documento vai recebendo carimbos que identificam por onde se vai passando, também apresenta seu portador aos hospitaleiros dos albergues e hotéis que estão nas rotas de peregrinação.

É tudo verdade
Quem já leu a respeito desta ‘viagem’ deve saber que não há idade ideal para realizá-la. Correto, ao longo do caminho nos deparamos com um grande número de peregrinos, que aumenta consideravelmente conforme mais nos aproximamos de seu final. Saem andarilhos de cada esquina que vão se juntando em trechos por entre as antigas casas medievais, pontes romanas, travessias pelo meio de plantações e até florestas. São pessoas de todos os tipos, credos, cores, sotaques e idades. Uma senhora inglesa caminhou por um dia ao nosso lado, com 78 anos de idade preferiu viajar só.

Muito se fala, também, sobre as pedras no caminho. Verdade, são muitas, porém a primavera nos brindou com mais flores do que poderíamos supor, e um clima apropriado, apesar da chuva fina e constante.
Outra verdade simples e comprovada é ‘a história do desapego’. Só se deve levar o que se pode carregar, mesmo que você por vezes se utilize do serviço de transporte de mochilas que, felizmente, existe e permite que pessoas impossibilitadas de transportar sua bagagem também possam participar.

Que muitos moradores locais se compadecem dos peregrinos é outra realidade incontestável. E surgem bananas, laranjas, bolos e chocolates no meio do caminho, de mãos caridosas que nos impulsionam ao objetivo final. E a segurança? Lembro-me de um senhorzinho, na última cidade portuguesa de nome Caminha, antes de atravessar para Oia, na Galícia, que gentilmente me alertou: Você não precisa se agarrar tanto a essa sacola, não temos ladrões por aqui. E de fato nem um único motivo tivemos para temer durante todos os lugares e dias da viagem.
Pés cansados? Bolha no pé? Também têm, mas nada que não se possa cuidar e no outro dia continuar. Teve até quem nem conseguiu ganhar a tal bolha ... melhor assim ...

Quem foi ele
Thiago filho de Zebedeu ou Santiago Maior, a quem foram atribuídos 22 milagres pelo Papa Calisto, nasceu em uma família de pescadores. Irmão de João Evangelista, foi um dos três discípulos mais próximos de Jesus. Após a morte de Cristo, Santiago, foi evangelizar no território peninsular espanhol, conhecido então como Gallaecia, até que regressou a Jerusalém, para acompanhar a Virgem no seu leito de morte. Ali foi torturado e decapitado no ano 42 por ordem de Herodes, rei da Judeia.
Seus discípulos, relata a lenda, após escaparem aproveitando a obscuridade da noite, transportaram o corpo do apóstolo Santiago numa barca até à Galiza (Galícia em português), onde chegaram através do porto de Iria Flavia, atual Padrón. Os varões depositaram o corpo do seu mestre numa rocha, que foi cedendo até se transformar no Sarcófago Santo. Após enfrentarem diversos contratempos para sepultar Santiago, a rainha Lupa, converteu-se ao cristianismo e cedeu o seu palácio particular para enterrá-lo. Hoje, em seu lugar, está a Catedral de Santiago.

O que levar   
Em primeiro lugar, a certeza de que quer vivenciar esta experiência. Este deve ser o seu maior propósito. Depois, vamos à mochila: de 35 a 60 litros com barrigueira para distribuir o peso para a cintura, fita peitoral para ajustar ao corpo e capa de chuva específica. Mochila pequena dobrável pois você não precisa carregar sua mochila todo o tempo. Nos albergues, hotéis e acampamentos há envelopes de empresas especializadas. Preencha a cidade e o destino e coloque dentro o valor cobrado. (5 ou 6 Euros).
Alfinetes de segurança, quando as peças lavadas não secam a tempo são presas às mochilas, bota de caminhada, tênis e papete, um número acima do habitual. Calça-Bermuda de caminhada, de preferência, com encaixe para a parte inferior da calça. Leve duas.
Três camisetas de tecido leve, com fator de proteção e tratamento antiodor. Canivete, cantil, capa de chuva, casaco impermeável, celular/carregador, gorro, lanterna, chapéu, luvas, três meias de caminhada de tecido respirável do tipo “cool max”, cuecas ou calcinhas e sutiã.
Desodorante, shampoo, escova de dentes, pasta, sabonete e sabão para lavar roupa, óculos de sol, protetor solar, repelente, toalha de secagem rápida, saco de dormir (apenas para quem pretende ficar em albergues).
Documentos (seguro saúde, passaporte), remédios pessoais, antiinflamatórios e micropore e o kit bolha  (agulha e iodo).

O Caminho Português pela Costa
Nossa viagem durou 17 dias, começou e terminou na cidade do Porto. Mas, é possível fazê-la em menos dias se os interessados pegarem transporte (ônibus/trem) e se adiantarem. Os últimos 100 km precisam ser feitos a pé ou a cavalo, para receberem a Compostela (certificado) ao final, na cidade de Santiago. Também podem abolir a cidade de Finisterre que fica depois de Santiago... se puderem, não deixem de ir.
Dicas que acho importante: em Portugal existe uma rede de Campings (Orbitur), eles têm preço camarada para os peregrinos (quase o mesmo dos albergues, 17 Euros), as acomodações são ótimas, nós ficamos em todos eles enquanto estivemos naquele País. Nestes lugares eles já reservam no camping da próxima cidade, é só pedir. Também não carregamos as mochilas o tempo todo, para alguns seria impossível. Então despachávamos de um lugar para outro sempre que possível.
A primeira etapa começou na Catedral Sé do Porto, para carimbar a credencial e retirar mapas, de onde seguimos para Matozinhos (8,5 km) e de lá para Maia e Vila do Conde (24 km) caminhando por passarelas que margeavam um mar de beleza impressionante, por uma encosta rochosa do Oceano Atlântico. O oceano e as praias de areia dourada nos guiaram até Vila do Conde, com vários pontos de interesses históricos e arquitetônicos. Monumentos, esculturas, construções, imagens da Idade Média permeiam todo o caminho.
Dia seguinte, seguimos de Vila do Conde para a popular cidade balneária de Póvoa do Varzim (4,2 km) por um trajeto essencialmente florestal, e de lá para Esposende (22,5 km). Pelo Concelho da Póvoa de Varzim passam dois dos caminhos portugueses em direção a Santiago. Atravessando a Vila de Rates temos o Caminho Central que, ladeando a magnífica Igreja Românica, se encaminha depois para o Albergue onde todos os anos repousam centenas de peregrinos. Por Póvoa de Varzim e as suas praias segue o Caminho da Costa, preferido dos que não querem perder o mar de vista.
Após pernoite em Esposende, demos início a caminhada em direção a Viana do Castelo (25 km). Deixamos a cidade para alcançar a localidade das Marinhas e dai, por entre pequenas aldeias, passarmos por Castelo do Neiva e Darque até chegar à histórica cidade de Viana do Castelo que alcançamos cruzando a velha ponte de ferro sobre o Rio Lima, de autoria de Gustave Eifell.
Nossa quinta etapa foi atravessar o belo centro histórico de Viana do Castelo em direção à Areosa e aos seus inúmeras sítios. Caminhando por entre altos muros de pedra que nos levaram a passar por Afife antes de se dirigir à vila de pescadores de Praia de Ancora. Daí passando pela aldeia de Moledo antes de entrar em Caminha para terminar a etapa de 29 km. Interessante no trajeto conhecer as originais técnicas de aproveitamento agrícola em terras de areia em frente ao mar.

A Costa Galega
Em Caminha nos despedimos dos alojamentos da rede Orbitur e também de Portugal. Esta etapa (19 km) até Oia começou com a travessia do rio Minho para assim entrar em terras da Galícia (Galiza em galego). Não pudemos tomar o ferryboat e a alternativa foi caminhar até La Guardia, atravessar a cidade em direção às belas praias e seguir por uma trilha próxima da estrada.
Na travessia da Vila de Oia até Baiona (15 km) observamos uma semelhança grande entre o que falávamos e o que escutávamos, estávamos na Espanha e continuávamos a nos comunicar na língua portuguesa. O carinho com que nos recebiam se mantinha, só mesmo o delicioso bacalhau ficara para trás, mas chegariam os ‘jamons’ de sabores inigualáveis.
Deixamos Oia e seguimos por entre praias, falésias e campos cultivados, até alcançar a cidade de Baiona. Já sabíamos das dificuldades quando iniciamos o oitavo dia: Baiona - Vigo (25 km). A esta altura, havíamos descoberto que o trecho sempre ficava mais longo que o previsto. Possivelmente ele fora medido como uma linha reta, porém, caminhávamos mais para chegar aos locais de repouso, quilômetros que não estavam computados, e, em algumas cidades, precisávamos sair em busca de alimentação. Atravessamos Baiona, paralelo à marina em direção ao cruzeiro da Santíssima Trindade de onde seguimos até chegar Nigran. Por entre bosques e pequenas aldeias nos aproximamos da cidade de Vigo, onde pernoitamos.
A nona etapa, Vigo - Redondela (14 km), foi como um presente, curta e fácil. Deixamos Vigo em direção à praça de Santa Rita, subimos no sopé do Monte da Madroa e dai para Teis. Depois iniciamos a descida através de Cedeira e Cruzeiro para alcançar Redondela e o Caminho Central.

Todos no Caminho Central
A partir de Redondela até Pontevedra (20 km), no décimo dia, percebemos que o número de peregrinos no Caminho aumentou muito, dali em diante o percurso é coincidente com o Caminho Central, e das ruelas, vão surgindo ‘seres’ de todas as partes do mundo.
Deixamos Redondela em direção a Arcade, lugar conhecido por ter as melhores ostras da Galícia. De lá para Pontesampayo, atravessar o rio Verdugo, por uma ponte medieval, que foi palco de uma sangrenta batalha em 1809, contra a invasão de Napoleão comandada pelo Marechal Ney, que se dirigia para Portugal.
Após encontrar um bar nas proximidades para um breve descanso, como quase sempre fazíamos após seis ou sete quilômetros caminhados, tivemos a oportunidade de percorrer um dos trechos mais bonitos do Caminho. Descemos até o rio Ullo e no trajeto outro momento de encontro com a natureza em seu estado mais exuberante, um cenário espetacular que proporcionou outras tantas reflexões a propósito da viagem.
Além de peregrinos de todas as partes, a partir deste trecho, Pontevedra - Caldas de Reis (23 km) começam a surgir os cruzeiros de cantaria lavrada, que nos indicavam que o caminho para Santiago estava correto. Na chegada a Caldas de Reis, cidade termal, pudemos encontrar vários caminhantes em momento de descontração molhando os pés cansados na água quente da Fonte das Burgas, e outros locais de onde elas brotam do chão.

O abraço do Apóstolo
Deixamos Caldas de Reis sentido Pontecesures - Padrón (19 km) através da ponte medieval do rio Bermaña e seguimos para Padrón, cidade onde, segundo a lenda, aportou a barca que transportava o corpo do Apóstolo.
Décimo terceiro dia e a sensação de estarmos próximos de conseguir finalmente chegar a Santiago. Somente 22 km separavam Padrón de Compostela, e nem demora tanto assim para atravessar bairros do subúrbio e vislumbrar a entrada do Caminho Português na cidade velha e as torres da Catedral. E, foi através de um apertado labirinto de ruelas medievais, que adentramos até à praça do Obradoiro e à Catedral onde o Apóstolo nos aguardava.
Chegamos em um sábado, como queríamos, para no dia seguinte participar da Missa do Peregrino, conversar, pedir e abraçar o Apóstolo e, apresentando o ‘passaporte da alegria’, receber a Compostela.
Todos na praça, estavam lá para homenagear São Thiago, agradecer por seus milagres e por sua compaixão.
Mas, como haviam nos informado, a viagem tinha ainda um outro destino, o fim da terra (Finisterre) para onde se dirigiam peregrinos ainda mais antigos por acreditarem que o deus Sol morria lá no mar todos os dias.
Ideal esperar o por do sol no farol de Finisterre (3,2 km a pé do centro da cidadezinha) local onde termina a viagem, molhando-se no mar, para recomeçar uma nova vida, “queimando” alguma peça de roupa, ou apenas pedindo uma nova oportunidade para voltar.

Símbolos do Caminho
Cajado - serve de apoio nas subidas e descidas, é considerado o terceiro pé do peregrino.
Setas amarelas - sempre presentes em árvores, ruas, indicando a certeza do caminho.
Vieira - representa que você é um peregrino, garantindo acolhida e proteção.
Credencial - é o passaporte do peregrino, retirada no início da caminhada recebe carimbos, certificando por onde o peregrino andou.
Compostela - é um diploma, o certificado oficial da peregrinação.
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